|
Sinopse - Carnaval 2007
TELLUS MATTER
"O CIO DA TERRA"
"Eu cantarei a Terra, Mãe de todas as coisas.
Inabalável ancestral do mundo. Origem de tudo
que se arrasta sobre o solo, nada no mar, voa no ar.
De ti, augusta deusa, nascem as belas crianças e os
belos frutos, pois tu lhe dás ou retiras a subsistência
segundo tua vontade. Da riqueza que espalhas, na
abundância de teu coração, o homem retira todas
as coisas: a colheita que enche os campos e o gado
robusto que lá prospera..."
Homero
Desde os primórdios da civilização o homem usou os recursos
naturais
para subsistir. Ao perceber que as sementes das plantas que
usava para se
alimentar germinavam quando caíam em solo apropriado, e que a
água que caía
do céu era o elemento que a fertilizava, ele concluiu que a
chuva que desce do
alto era um fluxo de esperma enviado pelo deus do céu, o
princípio masculino,
para fecundar a deusa terra, o princípio feminino. Sem entender
a força natural
que da TERRA fluía, em sua ingenuidade ele tentou desvendar os
mistérios da
Grande-Mãe, explicando sua origem e o milagre da vida.
Segundo os hindus o criador do mundo, Brahma, nasceu de uma flor
de
lotus e criou as águas, onde depositou sua semente. Essa semente
transformou-se
em um ovo de ouro, resplandescente como um astro de mil raios.
Com seu
pensamento Brahma dividiu-o em duas partes, formando com elas o
Céu e a
Terra, que era sustentada por elefantes cujos movimentos
causavam os terremotos. Andavam sobre uma tartaruga gigantesca,
encarnação do deus
Vishnu, a qual descansava sobre uma cobra gigantesca,
personificação da água.
Os assírio-babilônios acreditavam que no princípio existia Apsu,
o
oceano tumultuoso, de cujas águas confundidas saiu a deusa
Tiamat, na forma de
uma serpente gigantesca, masculina em cima e feminina embaixo.
Marduk, o mais
honrado dos deuses, divide em dois o corpo de Tiamat, fazendo da
metade
superior o Céu e da metade inferior a Terra.
Os egípcios acreditavam que os germes de todas as coisas
repousavam
no seio de Num, o caos, onde se achava o deus-sol Aton, que se
ocultava num
botão de lótus. Cansado da imobilidade, ele elevou-se luminoso
acima de Num e
criou os deuses e a Terra..
Para os gregos no princípio era o caos, espaço aberto e abismo
sem
fundo. Da organização do caos surgiu a primeira realidade
sólida: GAIA, a Terra.
Ela sozinha criou Urano, o céu estrelado, ao qual se uniu para
gerar todos os
deuses. Deméter será a deusa da terra cultivada, matriz
universal e mãe do grão,
que ensinou ao homem a arte de semeá-lo, colhê-lo e fazer o pão.
Na mitologia romana Cibele era a divindade da terra, a "Tellus
Matter",
mãe de todas as coisas e geradora dos fenômenos naturais.
Venerada como
sacra deusa, ela passava gloriosa em seu carro puxado por leões,
e as
tempestades eram a manifestação de suas forças.
Segundo a Gênese, Deus criou os céus e a terra. No princípio a
terra
estava informe e vazia. Então o Criador fez com que a terra
produzisse ervas e
árvores frutíferas, e seres vivos segundo a sua espécie. E do pó
da terra fez o
homem, para multiplicar-se e reinar sobre todos os seres.
As tradições afro-brasileiras explicam que no princípio havia o
caos, até
que o deus-supremo Olorum deu vida a Oxalá, o princípio
masculino, e Oduduá, o
princípio feminino. Olorum deu a Oxalá o “saco da criação”,
contendo as forças
necessárias para a criação do mundo. Esquecendo os preceitos
Oxalá bebeu
vinho de palma do dendezeiro e adormeceu bêbado. Surgiu então
Oduduá que lhe
roubou a sacola mágica, criando o mundo antes que ele
despertasse. Ao acordar,
Oxalá foi castigado por Olorum, que o proibiu para sempre de
tomar vinho de
palma e de usar azeite-de-dendê. Recebeu, porém, um prêmio de
consolação:
uma argila para modelar formas, com a qual criou os seres
humanos.
Mas o homem, evoluindo, descobriu através de estudos científicos
que a
Terra se formou após uma explosão gigante ocorrida há 20 milhões
de anos.
Incontáveis nuvens de gás e de poeira cósmica, pela força da
gravitação
começaram a se concentrar ao redor de diversos núcleos, formando
diversas
bolas de fogo. O núcleo central deu origem ao Sol, e os demais,
esfriando, se
transformaram em planetas, entre eles, a Terra. E durante
milhões de anos ela vai
sofrer transformações, até adquirir as características atuais,
com 30 por cento de
massa continental e setenta por cento de águas oceânicas. A
força que ordenou o
planeta há 4.600 milhões de anos, deixou em suas entranhas uma
multiplicidade
de poderes geradores, e a mãe terra, no cio, está pronta para o
milagre da vida.
Há 3.500 milhões de anos surgiram no mar os primeiros seres
vivos, de formas
muito primitivas que foram evoluindo lentamente, dando origem a
estruturas cada
vez mais complexas, até se chegar a todas as formas de vida hoje
existentes. E a
água será sempre o elemento fecundador, responsável pela
fertilização da mãe-terra. E gerando todos os seres, ela vai
alimentá-los, dar-lhes abrigo, e ser o seu
repouso no fim da vida, recebendo deles novamente o germen
fecundo.
O homem foi povoando e percorrendo a Terra, que acreditava
inicialmente ser plana e cercada por um oceano intransponível.
Transpôs o
oceano e percebeu que a superfície do planeta é curva. Mais
tarde Pitágoras
concluiu que a Terra é uma esfera e Nicolau Copérnico afirmou
que ela gira em
torno do Sol. Mas o fato determinante para o conhecimento do
planeta foi a
epopéia das grandes navegações iniciadas no século XV pelos
portugueses da
Escola de Sagres, que contornaram a costa da África chegando ao
Oceano Índico.
As viagens se multiplicaram, Colombo descobriu a América, Cabral
descobriu a
"Terra Brasilis", e Fernão de Magalhães deu a volta pela América
do Sul,
penetrando no Oceano Pacífico e fazendo a primeira viagem de
circunavegação
do planeta.
Graças aos navegadores foi criado o mapa-mundi, e há poucas
décadas
o homem conseguiu preencher os espaços em branco nas cartas
geográficas,
onde permanecia incerta a descrição dos territórios. No giro de
duas gerações ele
preencheu essas lacunas, e, voltou seus interesses para os
abismos marinhos e
os espaços celestes.
Conquistando o espaço, o homem pode finalmente contemplar a
Terra
de longe e admirar o seu planeta, belíssimo, envolto numa luz
azul, velada por
nuvens em movimento sobre as figuras nítidas dos continentes
recortados por
oceanos de bazalto.
Mas enquanto o homem admira a terra do espaço, vê que nem tudo é
azul no planeta azul: A Mãe Terra sofre com a deteriorização do
ecossitema, com
a extinção de espécies de animais, o esgotamento das fontes de
energia
acumuladas durante milhões de anos, a alarmante degradação dos
rios pelas
escórias industriais neles descarregadas, a contaminação dos
lençóis de água
pelos agrotóxicos, a fumaça causada pelas queimadas nos campos e
pela
motorização excessiva nos grandes centros urbanos, o
desmatamento
indiscriminado que privou o planeta de grande parte das
florestas européias e
norte-americanas, e que consome em ritmo acelerado a floresta
amazônica,
responsável por dois terços do oxigênio e garantia de vida no
planeta. A
destruição da camada de Ozônio aumenta a temperatura, o
derretimento do gelo
nas calotas polares ameaça as regiões litorâneas de serem
tragadas pelo mar.
Enquando algumas regiões sofrem com inundações, outras vivem o
flagelo das
secas.
A Mãe Terra sofre, e a nossa Terra Brasilis já perdeu muitas de
suas
belezas, já não são tantas as suas estranhas aves e pouca a
gente inocente na
sua nudez. Hoje, os filhos de bons rostos dessa terra de bons
ares estão cada vez
mais sem a sua floresta. Hoje ela é a terra dos sem-terra, dos
sem-teto e sem-nada.
A Terra Pátria, envergonhada, chora de tristeza, de ver tantos
filhos seus,
órfãos da Terra Mátria. E a Rosas de Ouro faz ouvir a sua voz,
pra que a Máe
Terra continue a gerar vida, como tem sido desde o início dos
tempos, e que todos
os seus filhos e herdeiros tenham direito a um pedacinho do seu
chão.
Fábio Borges
carnavalesco
O Cântico da Terra
Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore e veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte universal de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante do teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranquila ao teu esforço.
Sou a razão da tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim tu acharás descanso e paz.
Eu sou a grande mâe universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino do teu filho.
O algodão da tua veste
e o pão da tua casa.
E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.
Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos do sítio
felizes seremos.
(Cora Coralina)
|