|
Sinopse - Carnaval 2006
A DIÁSPORA AFRICANA
UM CRIME CONTRA A RAÇA HUMANA
A África é o berço da humanidade.
Ali nasceu o Homosapiens, negro, há 200 mil anos. Sendo a África
uma região quente, sua pele era escura devido a concentração de
melanina , que serve de proteção da radiação solar. À medida que
foi migrando para o norte, em direção às regiões frias da
Europa, sua pele foi se tornando progressivamente mais clara,
culminando nos povos nórdicos. Na África o homem evoluiu, criou
a agricultura e a civilização.
Na antiguidade os núbios, os
etíopes, os kuch e os nok tinham um avançado grau de
desenvolvimento, e os egípcios atingiram o apogeu de sua
civilização. Os conhecimentos da civilização africana, via
Egito, chegaram aos babilônios, persas, gregos, romanos,
contribuindo para a civilização da Europa.
Até o século XV a África seguia
seu próprio desenvolvimento, com importantes estados
constituídos, como o Império Songai, o Império de Gana, o Reino
do Zimbábue, o Reino do Daomé, a civilização Achanti (refinada
pela sua arte), a civilização Yorubá (composta de
cidades-estado), e a civilização Ilê Ifé, entre outras.
Algumas cidades como Gao, Tomboctu,
Djennê e Benim, eram mais povoadas que Lisboa, Veneza e Londres,
e possuíam universidades. As sociedades africanas eram
constituídas de várias etnias, ricas, complexas, plurais.
Possuíam estrutura relativamente estável, e os reinos africanos
gozaram de relativa estabilidade até a chegada dos europeus,
para quem vendiam ouro, marfim e sal.
Os portugueses são os primeiros a
chegar à África pelo Oceano Atlântico, em busca das riquezas do
continente. Além de ouro, sal e marfim, em 1441 eles levaram a
Lisboa alguns africanos como escravos, mais “curiosidade” do que
mão de obra.
Com o descobrimento da América por
Cristóvão Colombo, os portugueses vão dividir com os espanhóis
as terras do Novo Mundo. E para construir suas belas colônias
nas Américas, explorar suas minas de ouro e de prata, decidem
escravizar os ameríndios, que não se submetem ao trabalho
forçado. Fracassada a tentativa de usar mão-de-obra indígena,
eles vão se voltar para os negros da África, iniciando um tipo
de escravidão inédita, baseada no subjugamento de seres humanos
em razão da cor da pele.
A justificativa para a escravidão
negra é a Bula “Romanus Pontifex”, de 1455. Nela, o Papa Nicolau
V concede ao Rei de Portugal, D. Afonso V, livre e ampla licença
para “invadir, perseguir, capturar, derrotar e submeter todos os
sarracenos e quaisquer pagãos
e outros inimigos de Cristo onde
quer que estejam seus reinos”. Usando o nome de Deus eles vão
cometer esse grave crime contra a humanidade, fazendo crer que a
escravidão era a única maneira de salvar do inferno a alma
desses homens “sem alma”. A religião foi o suporte ideológico de
uma barbárie de “civilizados”. Inicialmente essa mercadoria
humana era constituída principalmente de populações vencidas por
soberanos locais. Estabelecendo com os chefes vitoriosos um
comércio baseado no escambo, trocavam com eles tecidos de seda,
jóias, tabaco e armas, por seus prisioneiros de guerra. Com a
intensificação das exigências comerciais, os pequenos reis levam
os brancos ao interior do continente, organizando verdadeiras
caçadas, ataques repentinos às aldeias, à procura da “madeira de
ébano”. Milhares de pessoas são capturadas e chegam ao litoral
em longas filas, como bestas humanas, chicoteadas e presas ao
pescoço por pesadas forquilhas de madeira. Ali é feito o leilão,
com os belos e fortes sendo escolhidos e velhos ou doentes sendo
sacrificados. O comprador examina com cuidado a boca de cada um.
Para cada dente que falte, o valor é reduzido. Antes de
embarcarem, no ponto do não retorno, que não veriam nunca mais,
eram marcados com a cruz em brasa para que passagem do estado de
“selvageria” ao estado de “felicidade”. Foram separados pra
sempre de suas famílias, para que apagassem da memória suas
lembranças e sua identidade cultural. Estima-se que o tráfico
custou a liberdade a trinta milhões de pessoas deportadas para
as Américas, sem contar as que morreram no momento da captura,
na triagem ou nos navios.
Durante quatro séculos,
portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e holandeses,
através do tráfico negreiro, vão esvaziar a África de seus
homens mais robustos, das mulheres mais sãs, das moças e
crianças mais belas. Perdendo suas forças vitais, o
desenvolvimento demográfico do continente vai ficar paralisado
por duzentos anos.
De todos os países americanos, o
que mais importou escravos foi o Brasil. Estima-se que durante
três séculos de tráfico intenso, o país vai receber entre quatro
e seis milhões de pessoas. Como mercadorias eram transportados
em navios negreiros, que chegavam a levar 600 africanos
amontoados nos porões, acorrentados uns aos outros em condições
sub-humanas. Durante a travessia, que durava dois meses, muitos
morriam por doença, desnutrição, inanição, banzo (melancolia
causada pela saudade da terra e de sua gente), ou desespero.
Muitos eram jogados dos navios, outros se jogavam como
resistência à escravidão, como se o mar os fosse devolver à
África.
Na chegada ao Brasil, eram
desembarcados como mercadoria, e substituídos por açúcar na
viagem de volta. Os primeiros desembarques aconteceram na Bahia,
em 1548. Em seguida se estenderam a Pernambuco e Rio de Janeiro.
Aqui novamente sofreram a humilhação da triagem, e após a venda
eram marcados a ferro em brasa com a identificação do comprador.
Vão sofrer, além da violência física, a violência cultural,
através da imposição do idioma português e da religião católica,
em detrimento da cultura africana, das suas crenças religiosas e
do seu modo de ser.
Aqui foram explorados nas lavouras
e nos engenhos de cana-de-açúcar, e a qualquer manifestação de
rebeldia eram amarrados ao tronco e sofriam todo tipo de
tortura. Os fugitivos capturados tinham a orelha cortada e a
letra F gravada na testa. Como reação a essa humilhação,
aumentou o número de fugas, e a melhor forma de resistência foi
a organização dos quilombos. O mais famoso, o de Palmares,
recebeu tantos fugitivos que chegou a ter 30 mil habitantes. Sob
o comando de Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares, vai resistir
durante 64 anos.
Com a decadência da indústria
açucareira no nordeste muitos escravos são deslocados para a
extração de ouro em Minas Gerais. E em Ouro Preto a teoria de
inferioridade intelectual dos negros vai cair por terra, através
do primeiro gênio brasileiro, Aleijadinho. Com o crescimento das
economias urbanas, os escravos passam a ser utilizados em outras
funções nas cidades, como a produção e venda de produtos
artesanais, ou o transporte de cargas. A miscigenação aumenta,
nasce o sincretismo religioso através das Irmandades dos Homens
Pretos e de terreiros de Candomblé e Umbanda. Os escravos
enriquecem o idioma português e fecundam a cultura brasileira
com seus temperos, ritmos e danças, com a percussão de seus
tambores, criando aqui os vistosos maracatus, as congadas, o
jongo, a capoeira, o frevo e o samba.
Durante três séculos produziram as
riquezas do país nos canaviais, nos garimpos e nas lavouras de
café, condenados a viver na pobreza. Nessa vida de sofrimento e
resistência, eles conservaram a integridade de sua condição
humana, sonhando com o fim da escravidão.
Com o crescimento do movimento
abolicionista e a pressão internacional, o Brasil será o último
país a libertar seus escravos, em 1888. Mas após a assinatura da
Lei Áurea pode-se dizer que acabou a escravidão? Ela deixou uma
marca tão profunda de preconceito racial, que impediu a elevação
dos negros a uma condição de igualdade na sociedade brasileira.
Eles continuaram escravos da relação de inferioridade econômica
em relação ao homem branco, e do descaso histórico pela cultura
afro-brasileira. A prática da Capoeira seria crime previsto no
Código Penal até 1937, quando é liberada. E as tradições
afro-brasileiras continuam vistas como cultura inferior, “coisa
de preto”.
Hoje a Constituição Brasileira
assegura a igualdade de direitos a seus cidadãos, sem
preconceito de raça, opção religiosa, sexo ou cor. Mas a
igualdade perante a lei não assegura aos afro-descendentes
condições dignas de vida.
O Governo Brasileiro tenta
resgatar essa dívida social, através do ensino da cultura
afro-brasileira nas escolas, e a criação de cotas nas
universidades para estudantes afro-descendentes. Mas um
trabalhador negro com formação universitária ainda recebe
salário menor que um trabalhador branco exercendo a mesma
função.
Hoje 45% da população brasileira é
afro-descendente. Muitos tiveram ancestrais reis e rainhas, mas
por causa da melanina, hoje são apenas reis da ralé, da favela,
da fome, da marginalidade, do trabalho pesado, da cozinha, do
salário mínimo, do desemprego.
O mundo reconheceu a escravidão e
o tráfico negreiro como um crime contra a humanidade, o Papa
João Paulo II reconheceu a responsabilidade da Igreja nesse
lamentável episódio da história da civilização, e o Presidente
Lula, em comovente viagem à África, pede perdão pela escravidão
no Brasil.
Mas não cabe apenas ao governo
reconhecer essa dívida social. Cabe a nós, cidadãos brasileiros,
em respeito à origem comum da raça humana e à nobreza do leite
da mãe negra que amamentou nossos antepassados brancos,
restaurar os direitos dos afro-descendentes, fazendo com que
eles possam andar de cabeça erguida como nossos irmãos, através
da promoção da igualdade racial.
Fábio
Borges
Carnavalesco
|